Cinema a céu aberto: primeira edição do ‘Curta na Estação’ movimenta cena cultural e resgata memória histórica de Sousa

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Neste ano, a organização prestou homenagem a Joaquim Mateus de Oliveira, conhecido como Escurinho Ferroviário

O Largo da Estação, no Sertão da Paraíba, transformou-se em uma sala de cinema a céu aberto entre os dias 21 e 23 de maio. A primeira edição do projeto "Curta na Estação" movimentou a cena cultural local ao exibir 22 produções audiovisuais, divididas entre curtas-metragens e videoclipes, além de promover apresentações musicais de artistas regionais. A iniciativa rompeu com o circuito tradicional de exibições em ambientes fechados e institucionalizados, ocupando a praça pública para conectá-la à memória afetiva e histórica do município.

A escolha do local carrega forte simbolismo, uma vez que a antiga estrutura ferroviária passou por uma reconfiguração urbana recente e, com o festival, foi reativada como polo de convivência e difusão artística. O evento teve como propósito descentralizar o acesso às telas e fortalecer as produções do interior do estado.

Neste ano, a organização prestou homenagem a Joaquim Mateus de Oliveira, conhecido como Escurinho Ferroviário. Durante 25 anos, ele atuou como artífice de via permanente na Rede Ferroviária Federal S.A., sendo responsável direto pela manutenção dos trilhos que cruzavam a região. A reverência buscou dar visibilidade a um trabalho fundamental para o desenvolvimento da cidade.

As mostras temáticas que dividiram a programação seguiram referências conceituais do universo dos trens, acompanhadas todas as noites pelas intervenções musicais da Mostra Sopro da Caldeira, que reverenciou a sonoridade sertaneja. Na abertura, a "Mostra Encontro dos Trens" relembrou o período em que as composições vindas de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte se cruzavam no município. Foram projetados trabalhos como o documentário A Arte dos Beradeiros, de EnioMarx, e a ficção Seca no Seridó, de Erik Brito, além do videoclipe de AriDUO e outras quatro produções. O encerramento da primeira noite ficou por conta do show acústico de J4MPA.

A segunda noite, batizada de "Mostra Ponto de Partida", focou em realizadores iniciantes e produções de estreia. O público acompanhou exibições como A Menina que Amava Gatos, de Maria Tereza, e Acauã: Canto, Lutas e Resistências, de Winna Casimiro, totalizando seis curtas e o videoclipe Preto, do cantor Elon. O músico Emiliano Pordeus realizou o show de encerramento da sexta-feira.

O último dia reuniu duas temáticas. A "Mostra Expresso Asa Branca" fez alusão à época em que os trens traziam as películas cinematográficas do litoral para o sertão, exibindo cinco filmes, entre eles Tempo de Vaqueiro, de Ramon Batista. Na sequência, a "Mostra Escurinho" encerrou a programação de filmes com foco na memória ferroviária, exibindo o videoclipe Trilhos do Tempo, de Emiliano Pordeus, e o documentário Nos Trilhos da Estação, de Enio Marx. A apresentação do DJ Manu Coelho fechou o evento.

Para os realizadores, a iniciativa cumpriu o papel de democratizar a cultura na região. Ênio Marx, integrante da Aquarela Produções e um dos organizadores, destacou o retorno da população. "O Curta na Estação nasceu pra valorizar nossos artistas e nosso patrimônio. E conseguimos. O Largo da Estação pulsou cultura com participação e aceitação popular. A gente sai com a certeza de que Sousa quer e precisa de mais eventos assim", afirmou.

Entre as obras exibidas na abertura estava o documentário Vilanova: Versos de Insurreição, dirigido pelo cineasta paraibano Sérgio Silveira, natural de São Francisco. O filme homenageia a trajetória, a poesia e o legado do repentista Ivanildo Vila Nova, celebrando mais de seis décadas dedicadas à cantoria de viola com a participação de figuras importantes, como a cantora Elba Ramalho.

Sérgio Silveira ressaltou a atmosfera criada pelo cinema de rua durante o festival. "Participar foi uma experiência extraordinária. Ver a tela integrada ao cenário da Estação, um dos espaços de memória da cidade projetando poesia popular num cenário de memória desse lugar. O cinema ao ar livre, cercado pelos populares, criou uma atmosfera onde poesia, memória e cidade dialogam arte. Foi uma noite muito bonita de encontro com o nosso público", avaliou o diretor.

O Curta na Estação foi realizado por meio do Edital Vladimir Carvalho de Fomento a Mostras e Festivais de Cinema da Paraíba, via Secretaria Estadual de Cultura e Governo da Paraíba. A execução foi assinada pela Aquarela Produções, com apoio da Fundação Bento Freire de Sousa, Rádio Educativa FM de Sousa, Prefeitura Municipal de Sousa, além do patrocínio da CAGEPA e do Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos. Outras informações e registros fotográficos estão disponíveis na página oficial do evento no Instagram @curtanaestacao.

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